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Videolocadora resiste aos avanços da tecnologia

Há uns dez anos, mais ou menos, assistir a um filme em casa era um ritual totalmente diferente. Você precisava sair de casa, ir a uma videolocadora, torcer para que o filme desejado estivesse disponível - ou reservá-lo antes - e alugá-lo. Normalmente, os lançamentos te davam o direito de ficar com a produção por 24 horas em casa. Depois era preciso devolvê-la. Caso ultrapassasse o prazo, havia multa. Parece burocrático, mas, para muitos, se tratava de um ritual.

Os clientes liam as sinopses, trocavam ideia e dicas entre eles e os proprietários das locadoras. Amizades eram formadas e ver o filme se tratava de uma experiência que ia muito além da produção. Uma experiência que a nova geração provavelmente não conhecerá, porque as locadoras estão praticamente extintas.

Em Rio Preto, estabelecimentos como a Ovni Vídeo Clube, a MTVídeo e a Real Vídeo, três das maiores e mais significativas locadoras de filmes, fecharam suas portas nos últimos anos, sucumbindo às mudanças de hábitos do público que se rendeu completamente ao digital, com os serviços de streaming e as possibilidades de alugar um filme com um simples clicar de um botão, do conforto do seu sofá ou cama.

Mas ainda há quem resista. Em uma portinha na avenida Danilo Galeazzi, entre uma casa de carnes e uma loja de informática, está a Vídeo 1000, uma videolocadora nos moldes mais tradicionais comandada há oito anos por Maurício Masuda, ou o Seu Maurício, como é conhecido pela clientela.

Quando abriu a Vídeo 1000, Seu Maurício pegou os últimos anos do auge. O sucesso de estabelecimentos de locação de filmes na época foi, inclusive, o grande motivador para o empreendedor investir em uma videolocadora. Eu tinha um sobrinho que tinha uma locadora na época e estava indo muito bem. Conheci o negócio com ele nessa época em que ainda estava bom. Eu trabalhava de vendedor e estava cansado de ficar viajando muito. Na época me parecia uma boa opção, nunca esperei que essas mudanças fossem acontecer, recorda.

Hoje, ele garante que os ganhos dão para sobreviver e manter o negócio, mas que a queda do público é preocupante. A movimentação caiu muito, só no último ano estimo uma redução de 40% a 50% no número de clientes. Tenho vários clientes que somem e, quando aparecem por aqui, dizem que estão assinando Netflix ou outros serviços de streaming. É uma pena, lamenta Maurício.

Estratégias

Para Maurício, alguns pontos são fundamentais para que o negócio continue funcionando. O primeiro deles é investir em filmes novos. Tem que ter sempre os lançamentos disponíveis. As pessoas não querem saber de filme antigo. Filme antigo eles veem em qualquer lugar. Toda semana compro novos filmes, busco me atualizar e trazer novidades e mesmo assim está difícil. Não é raro alguns clientes chegarem aqui e a gente oferecer algum filme ou série e as pessoas dizerem que já viram na Netflix.

O segundo fator é o preço. Alugar um lançamento na locadora do Seu Maurício custa R$ 4. É barato demais, mas se subir muito pode afastar os clientes que ainda restam. Nas últimas locadoras que fecharam, um filme recém-lançado para locação custava entre R$ 7 e R$ 8.

Além disso, tem a questão do atendimento. Maurício afirma que tenta oferecer aos clientes o melhor atendimento possível. E a simpatia é visível. Ele sabe, por exemplo, o nome de quase todo mundo que entra. Conversa, pergunta sobre o filme. Tento saber o nome de todos os clientes, criar uma relação com eles, conta.

Ainda assim a quantidade de locações caiu, afirma Maurício. Hoje, mesmo barato, levam no máximo dois filmes cada vez que alugam. Antes eram quatro, cinco filmes. Mas ele nem pensa sobre a possibilidade de fechar as portas. "Vou continuar até onde der. Vou comprar meus filmes e insistir".

E não importa o dia, de segunda a segunda, a locadora estará aberta das 10h às 22h, diz Maurício. Mesmo se não estiver muito movimentado, é importante estar sempre aberto para os clientes.

Fidelidade

O que tem feito com que a videolocadora continue com suas portas abertas é a clientela fiel, garante Maurício. "Tenho muitos clientes que não trocam a locação. Gente que gosta de vir aqui, ler a sinopse, conversar sobre os filmes. São eles que movimentam o negócio".

O comerciante Carlos Alberto de Oliveira, de 52 anos, é um desses clientes. Ele mora nas proximidades da videolocadora e não abre mão de passar por lá sempre que pode para dar uma olhada e até alugar alguns filmes.

Tenho Netflix, tenho aqueles serviços de aluguel pela TV, mas gosto de vir à locadora. Saio de casa, venho à padaria, passo por aqui, fico olhando os filmes. É um costume que tenho há uns 30 anos e continuar alugando filmes hoje em dia me traz uma sensação de nostalgia, conta. 

Fonte : Diario da Região 


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